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20 de março de 2026

5 de abril de 2026

Missão à Califórnia - EUA, 2026

A missão técnica da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (Abid) na Califórnia, nos Estados Unidos (EUA), ocorrida de 20 de março a 5 de abril de 2026, teve como objetivo conhecer os sistemas de irrigação, os métodos de manejo hídrico e de reúso de água, as tecnologias agrícolas e as estratégias de sustentabilidade adotadas em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo.

San Diego: história da irrigação e reúso de água

Em 22 de março, a comitiva visitou a histórica Old Mission Dam, em San Diego, estrutura de represamento considerada um dos primeiros grandes projetos de irrigação da Califórnia. Construída em 1803, a estrutura captava água de rios e a distribuía por canais até áreas agrícolas.
Além da visita histórica, o grupo conheceu o sistema de reúso de água da cidade, referência em sustentabilidade hídrica nos EUA. San Diego importa cerca de 85% a 90% da água que consome e investe fortemente em reciclagem de água para irrigação e uso industrial.
A cidade opera uma ampla rede de distribuição de água reciclada, identificada por tubulações roxas. Atualmente, aproximadamente 30 milhões de galões de água por dia são reciclados pela estação de tratamento North City Water Reclamation Plant, abastecendo parques, jardins, rodovias, universidades e campos de golfe.
A missão também visitou o Sunset Cliffs, um dos pontos turísticos mais conhecidos da costa californiana, famoso pelas falésias e pela vista panorâmica do Oceano Pacífico.

Imperial Valley: agricultura em pleno deserto:

Em 23 de março, o grupo esteve no Imperial Valley, uma das regiões agrícolas mais impressionantes do mundo em termos de engenharia hidráulica e irrigação, com mais de 200.000 hectares irrigados.
Localizado no sudeste da Califórnia, o vale recebe apenas cerca de 75 mm de chuva por ano e depende integralmente das águas do Rio Colorado. O abastecimento ocorre principalmente pelo All-American Canal, canal de 132 km de extensão, considerado um dos maiores sistemas de condução de água para irrigação do mundo.

O sistema é administrado pelo Imperial Irrigation District (IID), distrito público responsável por mais de 4.800 km de canais e drenos. A água é distribuída por gravidade diretamente às propriedades agrícolas. Devido às rigorosas restrições estaduais e à crise crônica do Rio Colorado, o IID investe massivamente em medição precisa, controle de perdas e infraestrutura tecnológica para manter a produtividade local utilizando menos recursos hídricos.

Mesmo em condições extremamente áridas, o Imperial Valley é estratégico para a segurança alimentar dos EUA. Durante o inverno, a região produz cerca de 90% das hortaliças folhosas consumidas no país, além de alfafa, trigo e beterraba-sacarina, contando também com atividade pecuária intensiva.

A salinidade do solo e da água está entre um dos principais desafios da região, o que exige controle por extensos sistemas de drenagem subterrânea. Na região do Imperial e Coachella Valley, há o escoamento e a drenagem das águas de irrigação agrícola para o Mar de Salton. A evaporação é a única saída de água do mar; logo, a concentração de sal aumenta constantemente ao longo do tempo. Hoje, a salinidade do Mar de Salton é de aproximadamente 45 g/L, 30% maior que a do oceano.

U.S. Salinity Laboratory: pesquisa em salinidade e eficiência hídrica:

Em 24 de março, a missão visitou o U.S. Salinity Laboratory, em Riverside, centro de pesquisa de excelência vinculado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
O laboratório desenvolve pesquisas voltadas à produção agrícola em solos salinos e ao uso eficiente da água, com destaque para as parcerias com outras instituições americanas e internacionais, inclusive brasileiras. Entre os principais trabalhos realizados, estão:
● Desenvolvimento de cultivares tolerantes à salinidade;
● Uso de imagens de satélite e sensores para mapeamento de sais no solo;
● Tecnologias para remoção de contaminantes de águas residuárias; e
● Modelagem da tolerância de plantas à salinidade.

A comitiva foi recebida pelo pesquisador brasileiro PhD Jorge F. S. Ferreira, que apresentou estudos sobre os impactos da salinidade no balanço hídrico e nutricional das culturas agrícolas. Nessa visita, também foram discutidas estratégias de manejo, como drenagem, uso de lâminas excedentes de irrigação e seleção de cultivares mais tolerantes, especialmente importantes para regiões semiáridas, como o Nordeste brasileiro.

Ventura e Paso Robles: irrigação e manejo eficiente:

Em 25 de março, a missão visitou a região de Ventura, importante polo produtor de limão, abacate e morango. Mesmo próxima ao Oceano Pacífico, a região possui baixa precipitação anual, cerca de 600 mm, o que torna a irrigação indispensável para a agricultura.

Os principais desafios observados foram relacionados à escassez hídrica, à salinidade, à contaminação de aquíferos, ao rebaixamento do lençol freático e à falta de mão de obra.

A equipe acompanhou atividades de campo com os especialistas Ben Faber e André Biscaro, que apresentaram tecnologias de manejo racional da água, incluindo aplicativos para apoio à irrigação. Os especialistas destacaram o trabalho de extensão realizado pela Universidade da Califórnia (UC), por meio da divisão UC Agriculture and Natural Resources (UCANR), que busca conectar pesquisas científicas à comunidade agrícola, com foco em manejo de pragas, cultivos, recursos hídricos e sustentabilidade.
Em Paso Robles, a missão visitou a vinícola J. Lohr e conheceu uma estação meteorológica do sistema California Irrigation Management Information System (CIMIS), referência no monitoramento climático e no manejo da irrigação em vinhedos irrigados por gotejamento.

Monterey e Salinas Valley: sustentabilidade na produção agrícola:

Em 26 de março, a missão esteve em Monterey e Salinas Valley, com acompanhamento do professor Caetano Albuquerque, da California University Monterey Bay. A região é responsável por cerca de 70% das hortaliças folhosas consumidas nos Estados Unidos. Apesar da escassez hídrica e dos problemas de salinidade, a agricultura local é altamente produtiva graças às técnicas avançadas de irrigação e drenagem.
Entre as iniciativas apresentadas na região para o manejo eficiente da água e dos fertilizantes, para a promoção da conservação do solo, estão: o uso de softwares de manejo da irrigação; a utilização de cobertura do solo para plantio direto; e o reúso de água na agricultura.

O reúso de água na região de Monterey é um modelo global de sustentabilidade. A região recicla águas residuais, de drenagem agrícola e de esgoto para fornecer água de alta qualidade a mais de 12.000 acres de produção agrícola, protegendo os aquíferos locais contra a intrusão de água salgada. O sistema de reúso fornece água de qualidade para a irrigação de plantações alimentícias (como morangos, alface e alcachofra) e, em parte, transforma águas de esgoto, pluviais e de drenagens de fazendas em água potável pura, devolvendo-a aos lençóis freáticos para abastecer e reforçar as reservas locais.

No mesmo dia, a missão visitou o reservatório San Luis, o maior reservatório off-stream dos Estados Unidos.

Fresno: tecnologia em irrigação localizada:

Em 27 de março, a comitiva visitou em Fresno a fábrica da empresa Netafim, referência mundial em irrigação localizada. A unidade produz sistemas de gotejamento, microaspersão, filtros, conexões e soluções inteligentes para agricultura irrigada. Foram apresentados sistemas de automação e de monitoramento da umidade do solo; processos de reciclagem de tubos de irrigação; uso de água residuária de bovinocultura na irrigação por gotejamento; tecnologias de fertirrigação e irrigação subsuperficial. A missão também visitou áreas irrigadas com vinhedos, amendoais, pistache, milho, trigo e alfafa. Segundo técnicos da empresa, o alto custo da água subterrânea e da energia faz com que os produtores utilizem sistemas altamente eficientes e automatizados para maior economia na produtividade agrícola.

Modernização dos canais de irrigação:

Em 28 de março, a missão visitou a empresa Rubicon, em Modesto, especializada em automação e modernização de canais de irrigação. Segundo os especialistas da empresa, a eficiência no campo depende diretamente da modernização da infraestrutura hídrica responsável pelo abastecimento das propriedades agrícolas por meio de canais. A visita também destacou a importância do sistema hídrico da Califórnia, baseado no degelo das montanhas da Serra Nevada, que abastece rios, barragens e canais responsáveis pela distribuição de água em todo o estado.

Atividades em San Francisco:

Em 29 de março, a missão encerrou a programação técnica com visita à cidade de San Francisco, incluindo passagem pela famosa ponte de Golden Gate e pelo bairro Chinatown; também houve um momento de experiência com veículos autônomos.

Advanced School on Microirrigation for Crop Production | UC Davis (Curso de irrigação localizada):

Entre 30 de março e 4 de abril, os participantes iniciaram o Advanced School on Microirrigation for Crop Production, curso intensivo de irrigação, localizado na University of California (UC Davis).
O evento reuniu pesquisadores, consultores, produtores, gestores de recursos hídricos e profissionais da irrigação de diversos países para discutir avanços científicos e aplicações práticas da microirrigação.
O treinamento abordou temas como manejo da relação solo-água-planta-atmosfera; necessidade hídrica das culturas; dimensionamento hidráulico; gotejamento subsuperficial; fertirrigação; automação; filtragem; salinidade; e uso de água residuária.

A programação ainda incluiu visitas técnicas em áreas agrícolas do Salinas Valley, com destaque para a produção de videiras irrigadas, as estações meteorológicas do sistema CIMIS, a produção de hortaliças irrigadas e o cultivo de morangos em vasos preenchidos com substratos e fertirrigados.

Sustentabilidade como principal desafio:

Ao longo de toda a missão, ficou evidente que o grande desafio da agricultura californiana é manter a sustentabilidade do uso da água diante da crescente escassez de água.

A redução dos níveis dos aquíferos, o aumento da salinidade e os riscos de contaminação exigem investimentos constantes. Na imersão possibilitada pela missão técnica, foi possível identificar que a Califórnia vem respondendo aos desafios por meio de uma combinação de inovação tecnológica e gestão mais rigorosa da água.

As principais ações incluíram a implementação de sistemas para controlar a exploração dos aquíferos, a expansão da microirrigação e da fertirrigação de precisão, o uso crescente de sensores, a automação e o sensoriamento remoto para apoiar o manejo da irrigação –, além de programas de recarga gerenciada de aquíferos durante períodos chuvosos.

Paralelamente, nota-se que houve uma migração para culturas de maior valor agregado e maior eficiência no uso da água (amêndoas, pistache, nozes, videiras, hortaliças de alto valor agregado), consolidando uma nova visão para a agricultura irrigada: maximizar a produtividade por unidade de água consumida, garantindo a sustentabilidade dos recursos hídricos no longo prazo.

Assim, a experiência proporcionada pela missão demonstrou como a integração entre pesquisa, tecnologia e gestão hídrica é fundamental para garantir a produtividade agrícola em regiões com severa escassez de água.

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